Quarto 180

As sombras estavam silenciosas. Os ruídos estáticos. Deitado em uma cama do quarto cento e oitenta, de paredes verde claro e teto branco, estava aquele senhor, aos quase noventa e um anos, e com diversos problemas a que conseguiu se adaptar, pelo menos até aquela semana.

A verdade era esta e pronto: estava para partir a qualquer momento. Quando? O médico disse que o tempo era indefinido: poderia ser dali uns minutos, umas horas, dias… Talvez somente o destino lhe diria. Destino! Essa palavra não saía de sua cabeça com poucos cabelos. Afinal, o que era destino? Teria ele existido todos aqueles anos à toa, e de repente tudo acabaria em um momento? Ou será que havia um céu? Mas talvez, se existe um céu, poderá também existir um inferno. Começou então a pensar se iria para o céu ou para o inferno. Ou outro lugar, quem sabe.

Não parava de pensar sobre o pós vida. Aquela ansiedade por obter uma resposta lhe fez lembrar de seus tempos de adolescência, de seu primeiro beijo, de seu primeiro namorado, de seus grandes amigos, de sua escolha de faculdade… Lembrou-se que na época, convidar alguém para sair era a coisa mais insegura para se fazer. Mudou de opinião quando foi procurar um emprego depois da faculdade. E mudou novamente quando pediu seu namorado em casamento. E de novo, quando recebeu a notícia de os papeis da adoção foram aprovados e que seria pai. E mais uma vez, quando virou avô. E por último, a notícia do médico.

Certamente, pensou ele, a vida é cheia de inseguranças, mas é necessário arriscar em muitas delas. Lembrou que se nunca tivesse superado o medo de tomar um fora, nunca teria pedido o homem de seus sonhos em namoro e mais adiante, como a vida se segue, em casamento.

Por um instante, parou de pensar em seu futuro, e voltou a se lembrar do passado. Olhou para cima, e no teto branco do quarto, várias imagens começaram a se projetar como que numa tela de cinema. Aos poucos, toda a sua vida entrava em cena, fossem pessoas, acontecimentos, filhos, netos, tristezas, felicidades e tudo o mais.

Será que se ele não tivesse superado a insegurança que sempre teve durante a adolescência, teria tido essa vida cheia de surpresas e emoções? Ou seria um adulto fechado, solitário, infeliz… Infeliz! Outra palavra que não saiu de sua mente. Em sua infância era muito infeliz, por ser ansioso. Desejava fazer de tudo, mas tinha medo de errar. E em consequência, não fazia nada. Ficava sozinho, arrependido por não ter feito nada do que queria.

Com muito esforço virou a cabeça para a grande janela do aposento e observou a paisagem. Viu o céu com vários pássaros que estavam de passagem. Lembrou novamente de seus tempos de criança, quando sonhava que voava, que era livre, sem as preocupações da vida que estava por vir, nem todos os problemas que teria que enfrentar.

Lembrou-se também da faculdade de medicina, onde desejava salvar as pessoas. Afinal, sempre quis o bem aos outros. Por isso, ficava até duas da manhã estudando livros e apostilas sobre o corpo humano. Ouviu o barulho de um médico passando no corredor, e se lembrou de seus tempos de plantão. Não se orgulhava muito de seus primeiros dias, quando uma paciente quase perdeu a vida por insegurança dele, por medo de errar um procedimento emergencial.

Voltou ao presente com uma tossida seca, vinda de onde também passaram frases de amor, diagnósticos, broncas, e muitos bons dias e boas tardes.

Finalmente, depois de tanto pensar, sentiu que sua vida não foi em vão. Salvou e ajudou muitas pessoas, criou filhos, netos… Saudades dos pequenos… No momento estão dentro de um carro, vindo para o hospital, ansiosos como sempre para ver o vovô… Percebeu que naquele momento, não queria saber de céu ou inferno. Ou de virar nada. Sabia que sempre estaria na lembrança de todos aqueles em cujas vidas ele esteve.

Olhou uma última vez para o teto. As imagens do passado aos poucos sumiram, até que o próprio pensamento desapareceu. Por um momento fechou os olhos. Às quinze horas e trinta e dois minutos, o médico deu a notícia aos familiares.

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Animador, ilustrador e professor. Gosto de contar histórias das formas mais variadas, além de fazer uns bolos bem bons. Mais no meu site: www.felipem.art

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Felipe Martinelli

Animador, ilustrador e professor. Gosto de contar histórias das formas mais variadas, além de fazer uns bolos bem bons. Mais no meu site: www.felipem.art